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A Invenção da Felicidade

Você quer ser mais feliz. Você acredita que pode ser mais feliz. Você entende que só depende de você. Todavia, essa visão de mundo não nasceu contigo. Ela lhe foi ensinada pelos seus pais, pela sua escola e pela sua TV. Ela faz parte da nossa cultura. Se você tivesse nascido em outra época, veria as coisas de um modo bem diferente.

Homero, por exemplo, não achava que ser mais feliz só dependesse de nós. No século VIII a.C., quando ele viveu, o mundo parecia um lugar perigoso e imprevisível, governado de acordo com os caprichos de deuses mitológicos, em uma lógica que fugia à compreensão humana. A felicidade poderia vir através do seu esforço, assim como poderia também não vir. Na língua inglesa, a conceituação de felicidade como acaso está embutida na própria etimologia da palavra happy (feliz), que tem parentesco próximo com as palavras happenstance (casualidade) e com a palavra perhaps (talvez). Como o historiador Darrin McMahon resumiu em seu livro Happiness: A History (Felicidade: Uma História), a visão de felicidade na Grécia antiga poderia ser definida na seguinte frase: “a felicidade é algo que acontece conosco, e sobre o qual nós temos nenhum controle”. Essa seria a visão prevalente não apenas na Grécia, mas também nas civilizações antigas da Ásia Menor, do Egito, da Pérsia e da Mesopotâmia. Segundo McMahon:

As legiões que tremiam sob o faraó, ou as multidões que retiravam sua sobrevivência do solo dos reis persas também experimentavam o mundo como um lugar precário […]. A maioria era obrigada a aceitar o que vinha, dificilmente ousando pensar que poderia alterar suas circunstâncias ou influenciar significativamente os muitos acontecimentos de uma vida. Era mais fácil e muito mais prudente assumir o pior e esperar pelo melhor, deixando a felicidade para os deuses.

Se pensarmos bem, veremos que essa visão ainda não desapareceu completamente. Ela continua existindo em pequenas sociedades tribais que vivem à margem dos nossos modernos conceitos ocidentais. É uma visão relacionada com a pobreza e com a miséria, que remete ao entendimento do homem como um ser pequeno, fraco e insignificante, incapaz de tomar as rédeas de sua própria realidade. Só na Atenas de 8 a.C. que essa concepção começou a mudar. Lá, partindo da reforma política realizada por Clístenes, os atenienses estavam trabalhando para construir uma próspera democracia. Com o sucesso dessa empreitada, vinham pouco a pouco compreendendo que o homem pode mudar sua vida para melhor, desde que se organize e que trilhe com disciplina o caminho correto. Essa compreensão nascente viria mudar não apenas a forma como entendemos a política, mas a forma como entendemos a nossa própria felicidade.

Dentre os gregos que inventaram a busca da felicidade, Sócrates foi talvez o mais ousado. Não se contentou em mendigar ao destino uma vida feliz. Convenceu-se que poderíamos nos tornar mais felizes por esforço próprio, desenvolvendo nossas próprias virtudes. Se nos tornássemos mais corajosos, mais sábios e mais justos, seríamos como os próprios deuses e, assim, seríamos felizes. A felicidade, portanto, estava ao nosso alcance. Bastava que nos tornássemos pessoas melhores. Mais tarde, seu aluno Platão, e o aluno de seu aluno, Aristóteles, levariam estas idéias adiante com entusiasmo.

Mas o conceito não estava firmemente estabelecido, e a felicidade ainda tinha uma longa história pela frente. Adormecida durante a Idade Média, durante a qual se acreditou que a vida feliz não pertencia ao mundo terreno, a busca pela felicidade só foi retomada após a Revolução Industrial, quando se iniciou a construção de uma sociedade mais individualista. No século XX, começou a assumir uma roupagem científica, e o mundo assistiu esperançoso o surgimento de psico- e farmacoterapias que prometiam (e ainda prometem) a cessação do sofrimento. Sobre o milenar anseio, construiu-se uma próspera indústria.

A despeito dos recentes esforços, empreendidos em magnitude industrial, a felicidade continua sendo hoje o que já era na época de Sócrates: uma busca. Mais frutífera para alguns, mais frustrante para outros. Para todos nós, certamente, um caminho que ainda estamos aprendendo a trilhar.

(Extraído do Livro “Não Sou Feliz… E Agora?“, de Estêvão Bittar. Clique aqui para saber mais.)

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Uma opinião sobre “A Invenção da Felicidade”

  1. Excelente texto! A leitura do texto me fez refletir sobre esse conceito “Felicidade” e não consegui uma perfeita definição. Parece estranho, passamos a vida buscando por algo que mal conseguimos definir, talvez por isso seja algo tão precioso e almejado. Seria como tentar definir Deus, não há definição, é simplesmente sublime e mesmo aquele que sente não consegue descrever. Esse texto me fez lembrar da famosa frase de Cecília Meireles “Liberdade, uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Me arrisco a encaixar “felicidade” nesta mesma definição.

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